sábado, 24 de julho de 2010

Razão

E ele fez dos fatos fatos, para resistir aos impulsos,
e fez dos fatos feitos fatos coração,
para aguentar partir sem pranto.

E mandou calar o fastio da saudade,
que uivava para a lua que não mudava.
E pôs suas luvas sobre a estrada,
e pôs a mesa sob a lua.

E jantou em andança,
com a mesa sobre as luvas,
caminhando e comendo e seguindo e dançando.

E andou rumo ao sol,
o sol dos sem rumo.
Andando só para evitar a estase,
num êxtase de ócio negro e doentio.

A estrada era negra como a noite
e clara como o dia
e laranja como o entardecer
e toda vermelha com o cansaço.

Foice

Foi-se o tempo,
Foi-se há tanto...

A dor da foice que ceifa
é a mesma da que caminha

Foi-se a seiva da relação
Foice que quebra o encanto

Foi-se a alegria
Foi se romper o pranto

no entanto
A foice sela o espanto

Portanto

O sangue que foi-se é do peito
que o talho da foice foi feito

Mas

O sangue do foi-se é negro
Escorre do espirito
E mata a rima,
E quebra a musica.
E doi, doi tanto!

Noite

Noite
Eu vejo o céu
Vejo o tecido negro,
Permeado por infinitas estrelas,
E tudo o que quero
É reunir cada brilho e cada treva -
Juntar tudo, e fazer um cobertor.

Para embalar teu sono,
E pra animar nossas horas despertas.

E, antes que gritem em protesto:
Eu clamo que lembrem do homem-pássaro, de Da Vinci,

E dos aviões.

Jornada

Navegamos num oceano sem destino -

nossos mapas chamuscados pelas estrelas,

os astros cobertos por sua fumaça,

que também encobre os faróis.


E antes que possamos achar rochedo

pra danar nosso casco à morte

eu paro e oro em medo:

eu renego o mando de minha sorte.


Dez anos nós nadamos

em busca de ouro e de sonho

porém, fato seja, nada achamos

exceto o futuro: irônico, risonho.


Nossos pais morreram,

Nossos filhos são já pais

Nossas mulheres se perderam,

E hoje temem nosso cais.


Já passaram as nossas vidas

morremos todos no mar.

Então tragam mais bebidas:

morreremos também no bar!